O Silêncio de Paranapiacaba
- AlfaFoco Produçoes
- 27 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Era fim de tarde, 18 de fevereiro de 2018.Lembro exatamente da sensação daquele dia — um misto de ansiedade e empolgação. Era a primeira vez que eu ia fotografar Paranapiacaba à noite.
Meu coração batia acelerado, não apenas pelo frio que já começava a se instalar, mas porque eu não tinha ideia do que encontraria. Minha câmera, eu sabia bem, não se dava muito bem com pouca luz. Ainda assim, algo em mim dizia que eu voltaria para casa com algo especial.
A estrada até lá foi quase um prelúdio do que me esperava. Conforme me aproximava da cidade, uma neblina espessa começou a tomar conta do horizonte. A chuva era tão fina que parecia mais um sussurro no vidro do carro. Ao chegar, senti como se estivesse entrando em outra dimensão — uma vila suspensa no tempo, envolta por uma névoa mística, como se estivesse prestes a me contar um segredo.
Havia um silêncio absoluto, quase sobrenatural. A cidade parecia dormir.
Atravessei a ponte devagar, com a câmera já em mãos, fotografando detalhes do corrimão molhado. Foi então que ela apareceu. Uma mulher correndo com um guarda-chuva, emergindo da neblina. Passou por mim sem dizer uma palavra, apenas diminuiu o passo ao perceber a câmera. No fim da ponte, ela se virou para trás, como se quisesse me dizer algo... mas desistiu. Continuou andando, desaparecendo na névoa.
Foi nesse instante que cliquei. Meu primeiro disparo da noite. Não revisei a foto, não conferi no visor — apenas continuei a caminhar.

O vento frio cortava o rosto, e a garoa caía como agulhas finas, quase poéticas. O som do vento passava pelas frestas das cercas e produzia um ruído que lembrava filmes de suspense. Mas nada daquilo me assustava. Era mágico. Era como se a cidade estivesse viva e, ao mesmo tempo, em silêncio, me convidando a ouvir sua história.
Continuei explorando e mais tarde encontrei outra cena — uma senhora subindo uma rua de paralelepípedo, guarda-chuva em mãos. A luz alaranjada do poste se misturava ao azul profundo da noite e à neblina, criando uma paleta de cores digna de cinema. Cliquei outra vez, quase sem pensar.

Mais tarde, já próximo das nove da noite, decidi ir embora. A cidade estava quase deserta, a neblina mais densa. Ao subir novamente a ponte, vi outra silhueta: uma moça, elegante, com roupas de chuva. Ela estava posicionada exatamente onde a luz forte de um refletor criava um recorte perfeito de sua silhueta contra a neblina. A ponte, a estação iluminada, a névoa — tudo se alinhou. Era o último presente que Paranapiacaba me daria naquela noite. Apertei o disparador pela última vez.

Quando cheguei em casa, horas depois, abri as fotos no computador. A primeira imagem, convertida para preto e branco, ganhou um contraste dramático e se tornou uma das fotos mais expressivas que já fiz. A segunda, com um toque de nitidez e remoção de ruído, revelou-se uma pintura: a senhora caminhando sozinha, a luz do poste, a chuva — tudo transmitia um silêncio poético. A terceira foi simples de editar. Bastou alinhar o horizonte e aplicar o preto e branco. Ela se tornou uma das imagens mais emblemáticas da minha carreira, condensando em um único quadro tudo o que senti naquela noite: o frio, a neblina, o silêncio, a solidão e a beleza de estar ali.
Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Aquela noite em Paranapiacaba me ensinou que às vezes uma única foto pode falar mais que todos os sentimentos juntos.






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